Promessa Silenciosa

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Mensagem por Yurisas em Sab 09 Maio 2015, 23:45

O garoto estava paralisado. À sua frente, uma enorme poça carmesim se alastrava, chegando aos seus pés. A partir daquele momento sua vida jamais seria a mesma. Tentou gritar, entretanto o som não saiu de sua boca. Tentou correr, mas suas pernas não o obedeciam. Estava protegido dentro do guarda-roupa onde havia sido deixado. Foi a última vez em que teve os braços fortes de seu pai o envolvendo. Agora ele estava sozinho. Era bem verdade, seu pai era um homem admirado na região, conhecido por defender os interesses dos agricultores de Erobring, e peitar sem medo os poderosos da região. Aliás, era exatamente por conta desse comportamento quase heroico que agora seu corpo jazia ao lado do da mulher no chão daquela casa.

Sim, seu pai era um homem realmente digno, entretanto sua mãe... Sua mãe era algo mais. Qualquer um que a conhecesse pelo menos um pouco saberia que compará-la a um anjo não seria nenhum exagero. Como se não bastasse sua beleza praticamente sobrenatural, era admirável a dedicação com a qual ela tomava conta dos Pokémon da pequena propriedade, cuidava do filho e mantinha a casa, arranjando tempo para cultivar e estudar as ervas e berries que cresciam em sua horta, sempre disposta a tratar dos ferimentos, graves ou leves, de qualquer um que viesse procurá-la por não ter dinheiro para pagar um médico particular ou tempo para perder nas filas do hospital público. O pequeno fez uma promessa silenciosa: jamais esqueceria o seu sorriso.

O menino escutava passos se distanciando. Os responsáveis por aquela tragédia deixavam a pequena fazenda onde até então vivia uma das mais queridas famílias da zona rural da cidade mais assustadora de Shinki. Esperou alguns segundos para sair do esconderijo, e quando o fez derramou todas as lágrimas que contivera até então. Praticamente engatinhando, foi até o corpo dos seus genitores. Deitando-se no meio dos dois, sobre aquele mar de sangue. Chorou tudo o que tinha pra chorar e abraçou o corpo inerte da mulher, ainda ensanguentado. A expressão estampada no rosto dela em nada lembrava o sorriso habitual que ela sempre exibia. Não conseguia lembrar uma única vez em que vira a mãe vestir uma face tão como aquela. Parecia que ela se continha para não mostrar todo o terror que sentia, enquanto se esforçava para transparecer uma paz fingida. Exatamente o tipo de paz que ninguém deseja alcançar.

Prometeu silenciosamente que o responsável por aquele espetáculo horrendo iria pagar caro um dia, e seria exatamente ele o responsável por aplicar o castigo que tanto merecia. Deu um último beijo na testa de sua mãe, e atravessou a porta. Olhou para as cercas: alguns Tauros e Miltanks dormiam ali. Lembrava que o pai sempre falava do vegetarianismo praticado pela ele, pois eles produziam uma (pequena) parte da carne de Shinki, mas ela apenas ria de volta, apenas aceitava que era assim que eles pagavam as contas.

Naquela noite estrelada o garoto deixou a pequena propriedade onde o letreiro indicava “Rancho Sychi”.
Yurisas
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